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Tenho orgulho da LGBTTT

28 jun

Hoje é dia do Orgulho Gay e, como já me chamaram de lésbica por defender a comunidade LGBT, posso dizer que tenho Orgulho da Comunidade LGBTTT – ora, posso dizer que tenho orgulho de ser chamada de lésbica também!

Homossexuais, bissexuais, transexuais, transgêneros são pessoas que todos os dias são discriminadas e agredidas por sua sexualidade e identidade de gênero, mas não desanimam, não se deixam abater e reúnem um número espetacular de pessoas para festejar o orgulho de ser o que é, como é, de não baixar a cabeça diante da dificuldade que é ser diferente em nossa sociedade tão preconceituosa.

Eles e elas estão aqui e em todo lugar, são filhas e filhos, professoras(es), médicas(os), advogadas(os), mães e pais, tios e tias, avôs e avós etc e não adianta fingir que não vê a maneira como são tratados, não adianta fingir que el@s não existem, não adianta torcer o nariz, pois estão aqui , e é para estarem mesmo.

Eu tenho orgulho da mobilização e das conquistas que o grupo LGBTs vem alcançado e sempre irei ajudá-los, e não adianta você me achar sapatão por isso, ser lésbica não é ofensa para mim, ao contrário, fico feliz que achem isso quando luto por elas, minhas amigas lésbicas, e também pelos amigos gays, pois significa que incomodo, que estou tocando na ferida e a pessoa por não aceitar que alguém heterossexual como ela se misture com os homossexuais quer desclassificá-la chamando-a de homossexual também, mas veja só, eu te agradeço por isso e não deixarei de lutar ao lado del@s até que tod@s possam andar pelas ruas acompanhados sem sofrerem agressões ou discriminações; até poderem beijar a(o) namorada(0) sem que isso seja motivo para xingamentos ou coisa pior; até que jovens não se sintam mal por serem o que são; até que adolescentes não pensem em se suicidar por medo de a família, amigos e sociedade não o aceitarem por ser diferente; até que no mundo todo, homossexualidade e transexualidade deixe de ser vista como anomalia, ao ponto de ser condenação à morte.

Até que tod@s sejam livres para viverem sua homossexualidade e/ou transexualidade com dignidade, eu apoiarei e terei orgulho da comunidade LGBTTT. E até depois disso também!

E tenho vergonha dos heterossexuais que acham que pedir para ser tratado com dignidade é pedir tratamento especial, tenho vergonha das pessoas que humilham e perseguem alguém por ser diferente, tenho vergonha de pertencer a uma maioria tão opressora que não reconhece seus privilégios de heterossexuais e não permitem que uma minoria goze de direitos básicos dos cidadãos como o de ir e vir sem sofrer agressões.

Este post é uma palha para a Blogagem Coletiva do Dia do Orgulho LGBT!

 

 

Religião e Homossexualidade

22 abr

Ontem eu li um poste da Lola Aronovich intitulado “Assim me diz a Bíblia“, no qual me deu vontade de compartilhar um episódio que ocorreu comigo e minha sobrinha de 4 anos – que no episódio tinha 3. Porém, ao enviar o comentário, apareceu a mensagem de que ela não foi enviada por ter mais de 4.000 caracteres, cortei uma parte, tentei resumir mais, mas ainda assim aparecia a mensagem de que tinha mais de 4.000 caracteres. Então pensei: “oras, se tem tantos caracteres assim, farei um post em meu blog!” – E cá estou para contar-lhes uma história e lhes sugerir a leitura do texto de Lola.

Há alguns dias, talvez semanas já, minha sobrinha mais velha (tenho mais uma sobrinha e um sobrinho bebês) de então 3 aninhos de idade (a idade é importante, lembre-se dela!) estava mexendo no YouTube e vendo clipes de músicas americanas e descobriu a Katy Perry através do clipe Firework – ela também curte Justin Bieber, Black Eyed Peas, Avril Lavigne, Chiquititas, Restart, Marisa Monte, entre outros, que nós apresentamos para ela, assim como fazemos com vários estilos de músicas, mas é ela quem escolhe as que gostou ou não, não importando o quanto a gente diga que esta é ruim ou aquela é boa – pois se fosse, ela adoraria Mariah Carey por minha causa!

Mas voltando ao clipe em questão, Firework, recomendo também que leiam a letra (aqui a tradução), pois o clipe – um dos poucos – é totalmente construindo em cima da letra.

Nele, aborda-se questões bem corriqueiras entre adolescentes e jovens como a aparência, brigas entre pais, a sexualidade, o bullying etc. Tem uma jovem acima do peso que tem vergonha de tirar a roupa e entrar na piscina com os amigos em uma festa; tem um jovem triste em um canto de uma festa porque se sentia ‘peixe fora d’água’ devido sua homoafetividade – isso descobrimos depois, até então ele é apenas um jovem triste num canto de uma festa.

Eis que quando a Katy começa sua mensagem de que cada um de nós é importante do jeito que é, que não devemos nos envergonhar disso e que devemos nos mostrar como somos e sermos orgulhosos, e então o rapaz gay levanta e caminha em direção a outro rapaz e o beija, e é correspondido – agora parem tudo, pois aqui ocorre a parte mais importante de minha história! Minha sobrinha – lembram a idade? – que estava assistindo esse clipe (e eu estava vendo apenas para policiar o que ela estava assistindo por razões óbvias e ainda não conhecia esse clipe da Katy Perry) sem muito interesse até as faíscas saírem das pessoas e ela achar legal as pessoas brilharem como fogos de artifício, ficou em choque, com olhos arregalados e com uma expressão de total surpresa sem resquício de nojo ou alegria ao ver uma cena de dois rapazes se beijando, e então ela vira para mim, observando a minha reação e diz: “doi meninos se beijando! Não pode…”  – ainda aguardando o meu parecer para algo tão novo e no qual já taxou como errado devido influências externas (ela adora histórias de contos de fadas e da Barbie, e nem preciso dizer que em todas essas histórias não há casais homossexuais, e ela nunca viu um casal homossexual demonstrando afeto ao vivo e já viu inúmeros casais heterossexuais se beijando em sua frente, portanto, já presumiu que não era certo (e veja como faz toda diferença a reação/comportamento de um adulto nessas horas – arrisco-me a afirmar que é decisivo), e a minha reação foi neutra, pois para mim a cena não significava nada, seria a mesma reação ao ver um casal heterossexual se beijando, e notei que isso a deixou apreensiva – juro que ela ficou tensa! – e a cena já tinha passado há tempos. Foi então que resolvi abordar o tema já escolhendo a melhor forma de me fazer ser entendida devido sua curta idade. Primeiro eu ri e então falei “ele gosta do rapaz e o rapaz gosta dele e querem ser namorados, e namorados se beijam na boca” Sua reação foi rir e indagar “mas menino pode namorar menino?” e eu respondi “sim, pode, menino pode namorar menino ou menina, e menina pode namorar menina ou menino, basta os dois serem grandes e gostarem um do outro dessa forma…” Ela se deu por satisfeita com minha resposta e comentou nas outras três vezes em que assistiu ao clipe seguidamente que os rapazes estavam se beijando. Depois do choque, veio a dúvida, depois veio o graça, e então veio a normalidade – sempre me observando na parte em que os rapazes se beijavam – e me chamando nessa parte para que eu visse, caso não estivesse ao lado dela.

Além da questão dos rapazes gays, ela me perguntava sobre tudo que acontecia no clipe “por que o menino está triste?” “Por que a menina está triste?” Por que a mamãe está chorando?” Por que ele está descalço?” Por que estão correndo?” “Por que sai luz deles?” etc e claro que respondo a tudo de forma que ela entenda, meio superficialmente, pois na idade dela ninguém se prende a detalhes demais. Ela sempre faz isso com todos os clipes em cenas que ela não compreende, e faz isso nas primeiras vezes em que vê o clipe, seguidamente. Depois que ela compreende o clipe, ela passa a se concentrar na música e a tentar cantá-la, e depois parte para outro, mas nos dias seguintes volta ao clipe recém descoberto.

Então, no dia seguinte, ela quis ter a sessão YouTube dela, na qual normalmente estou sempre presente, e pediu para por o clipe dos fogos da Katy Perry. Dessa vez, na parte em que os meninos se beijaram, ela foi até seu quarto e pegou dois bonecos dela – dois Kens – e fez os dois se beijarem na boca “olha, se beijam como os dois meninos do filme” ela me disse – novamente observando minha reação que foi a mesma referente ao clipe, neutra. Eu balancei a cabeça e disse “é, eles estão namorando também”.

A partir daí, ela passou a pegar todas as bonecas e bonecos e formar pares homossexuais e heterossexuais e me mostrava. As Barbies se beijavam e ela dizia “meninas também podem?” – eu dizia “claro que sim, dois adultos podem namorar se se gostarem, homem ou mulher, tanto faz” – devo fazer uma adendo aqui, sou contra crianças namorando, ainda que saiba que é inofensivo, sem qualquer malícia, mas acho que é contraditório você achar lindinho uma criança de 3 anos namorando, quando acha que aos 10 não é apropriado ainda, pois gera a dúvida na criança: “como posso ser nova(o) para namorar aos 10 se quando tinha 3 achavam lindo?” e não gosto da sensualização precoce das meninas e dos meninos – mas isso é tema para outra hora.

Agora, lá em casa, nós vemos casais de todos os tipos em suas brincadeiras, mas a maioria ainda é heterossexual e não vejo problema nisso, pelo menos ela sabe que existem comportamentos diferentes desse e que são normais também.

E qual a minha intenção com toda essa história? Se não ficou óbvia, esclareço.

Nós somos produtos do meio também, e mesmo quando não falamos para uma criança sobre o que é certo e o que é errado, ela toma os exemplos – os comportamentos dos adultos e vai se moldando, quando ela tiver uma atitude considerada inapropriada, certamente será por já ter visto alguém fazendo isso ou por já tê-lo feito e não ter sido recriminada, da mesma forma como ela formará conceitos sobre comportamentos errados e acertados ao ver a reação dos que estão a sua volta diante destas situações.

Minha sobrinha, agora com 4 anos, acha normal ver um casal homossexual, como também acha normal meninas e meninos brincarem com os mesmos brinquedos e brincadeiras – pois já foi mostrado para ela que meninos e meninas são iguais, com exceção da diferença biológica da vagina e do pênis, e que podem brincar da mesma maneira, com as mesmas brincadeiras, portanto, ela brinca desde casinha e com bonecas, até correr e pular com meninos e brincar de lutinha e com espadas. Prefere vestidos e gosta de histórias em que tenha ação, mas sabe que pode usar roupas tidas como masculinas, e sabe que ela pode ser desde a inútil da princesa até a heroína, e até mesmo intercala os papéis em suas histórias imaginárias – sendo que na maioria das vezes, ela salva o príncipe – e agora até a princesa!!! Ela é livre para ser o que quiser ser, ela já sabe disso, e quando tem alguma dúvida, sempre fica atenta aos adultos que estão a sua volta – você nem precisa falar nada, ela nota sua atitude diante de um acontecimento.

Perceba como tudo influencia uma criança – se antes ela achava errado um comportamento homossexual ou meninas brincarem com brinquedos de meninos (e achar que existia essa diferença) – ela agora brinca e ainda responde se alguém a recriminar.

Tenho mais uma história relcaionada a esse tema, mas essa foi relatada por minha irmã.

Ela disse para minha irmã – mãe dela – que tem três namoradinhos – ela fala isso rindo, sempre – minha irmã fala que ela não pode ter namorados ainda, só quando crescer, mas pergunta quem são os namorados, ao que ela responde três nomes da turma dela: dois meninos e uma menina. Minha irmã diz para ela “mas a fulana é menina, por que não escolhe um dos meninos apenas?” ao que ela responde prontamente “a tia Daniela disse que pode” se referindo a ter tanto menino quanto menina como namorado(a), ao que minha irmã retruca falando “mas só quando você for grande e só pode escolher um “ – ela escolheu um menino – ela adora o garoto, diz que ele é dela e que são príncipe e princesa e vão para um castelo – olha aí a influência dos contos de fadas, ela não disse que o que falei era errado. Depois minha irmã me contou esse caso e eu contei a ela a história que envolve o clipe da Katy Perry – ela não faz objeção, apesar de ser do time que diz que aceitaria se um(a) filho(a) fosse gay/lésbica sem problema, mas que preferiria que fosse hetero por ser mais simples (o que entendo, mas não concordo).

Talvez seja importante esclarecer que somos brancas, de classe média, heterossexuais e que ela é cristã – inclusive minha sobrinha estuda em escola católica, pois minha família é católica em sua maioria, e a pequena já aprendeu vários comportamentos sexistas em sua curta vida nessa escola, mas eu sempre reverto a situação, com conhecimento da minha irmã – apesar de discordarmos em alguns pontos, ela prefere que eu aborde certas questões que ela não tem tato ou conhecimento necessário para elucidar.

Alguns familiares e pessoas próximas que souberam de toda essa história acharam que eu não deveria dizer que não tinha problema um relacionamento homossexual, e a maioria dessas pessoas se considera “mente aberta” e não homofóbicas, que tem amigos e até familiares gays etc, mas me parece que isso só vale com desconhecidos ou até certo ponto, há um limite e se fosse uma delas que estivesse ao lado de minha sobrinha quando ela ficou espantanda por dois rapazes se beijarem, provavelmente teria feito algum comentário antipático em relação ao comportamento – e agora me diga se ela estaria brincando com suas bonecas e bonecos montando casais tanto hetero quanto homossexuais se isso ocorresse? Claro que não, no mundo dela só existiram casais heterossexuais, esse comportamento seria o único concebível e quando se deparasse mais tarde com outro tipo de comportamento agiria preconceituosamente – o que não a impediaria, ainda assim, de refletir sobre a diversidade e observar que pessoas são diferentes em vários aspectos e aprender a conviver com isso.

É assim que vejo a questão da religiosidade também, sei que vão achar que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas para mim tem o mesmo princípio. Eu não percebo o plano espiritual ou divindade como algo importante, e inúmeros conceitos religiosos me são absurdos e outros tantos pura tolice, mas não viro para nenhum crente que conheç0 e debocho ou recrimino sua opção de acreditar em tais coisas, muito menos quero que ele deixe de acreditar em tudo isso e converso abertamente sobre o tema se ele quiser, sempre o respeitando. Então exijo o mesmo respeito.

Isto se aplica também a nossa complexa sexualidade. Sou heterossexual e não tenho problema com a homossexualidade, e entendo que pessoas não tenham sido educadas para ver normalidade na homossexualidade – apesar de que eu também não fui e nada me impediu de perceber que o fulano gay/a fulana lésbica tem todo o direito de expressar o que sente da mesma forma que eu, e que possui os mesmos deveres e direitos que eu, inclusive o de respeitar e ser respeitado, simples assim – e sei que algumas pessoas são educadas a pensar que é abominável, pecado etc(e quem ensina isso? e por que acredita nisso?), mas somos seres humanos pensantes(?), estamos sempre descobrindo coisas, já desmistificamos vários mitos, e todos sabemos o que é respeitar, então não há como aceitar que tantos religiosos (ou homofóbicos) se sintam no direito de impedir que homossexuais exerçam seus direitos – concedidos desde o nascimento – e desrespeitem um homossexual chamando-o anormal e doente, que o agrida, bata, humilhe ou cerceie. Perversidade é perseguir, condenar, humilhar e matar outros seres humanos e não amar ou sentir-se atraído por pessoas do mesmo sexo.